Amor sem fronteiras

O Martin chega ao consultório atento a todos os pormenores. O seu olhar desconfiado é de certo modo incerto e revelador de um certo desdém. Parece que já não há nada a fazer. O ultimato. O sofá carrega os seus primeiros suspiros. O controlo da respiração não parece ser muito eficaz. Quão intimidante poderá ser este sofá. Estes olhos que perscrutam a sua intimidade sem querer. Como que um inimigo qualquer.


O primeiro contacto é determinante. O momento em que começa a abrir sem confiar.

Como se confia exatamente? Como se respira sem revelar o que dói…? Há uma prisão social que nos faz esconder. Esconder quem somos. Esconder o desconforto. A dor e os fantasmas.


Martin era um homem só e autêntico. Quando conhece alguém, o que é raro, entrega-se no mar da relação e uma parte de si quebra. e....uma parte de si moldou-se e cedeu. O problema é que essa parte que se moldou parece ser uma parte estrutural da sua personalidade. E quando se muda, nada fica igual. Quando se perde, nada fica igual, um truque da sua mente.

Contudo, o seu amor era tão intenso que o motor de busca procurou muito mais que um nome. Encontrou percursos, nomes associados, delírios facebookianos, fotografias antigas, entre outras provas da vida intensa do seu amor, nesse mundo lá fora. Um mundo tão perigoso e agressivo.

Martin perdeu-se no mundo digital e encontrou ligações e informações que lhe faziam sentido numa plataforma que perverte todo o tipo de sentimentos e autenticidade humana, quando mal interpretada. Criou um ritual de pesquisa do qual alimentou os seu dias. Os seus tempos livres.


Martin era uma homem só e autêntico. No entanto, as suas interpretações eram tudo menos reais. Dizia: "Há pessoas, cheiros e lugares que nunca nos deixam. Ficam sempre connosco. Nunca partem." A parte difícil do processo é saber desligar. Integrar a sua história emocional num passado que fugiu e já não cabe no presente. Encontrar remendos fortes e estruturados que enriquecem o presente e o futuro, como rugas de uma expressão da vida que estão lá porque desenham a face desse mesmo passado e dessa maturidade.

Não se muda. Nada se altera. As rugas e as feridas habitam-nos. Registam um percurso já realizado. Já terminado.


Sessão a sessão, Martin foi concedendo a si próprio o privilégio de largar toneladas de pesos pesados do passado e transformá-los em sabedoria. Nada mudou. Só a sua percepção de si. A sua consciência de si ganhou volume. Sentiu-se mais leve. Palavra a palavra.

O sofá era o seu ponto de partida para o início de uma contemplação de um passado que se distanciava. Uma carga que navegava nos mares da compreensão e da sapiência da recordação. Filtrou dia a dia uma aprendizagem. O sumo da maturidade. Compreendeu e largou. E quando largou foi para sempre.

Há pessoas que são nossas para sempre, mas só no coração. E ainda bem que sim! Os anos abrem portas e novos compartimentos de amor. Os novos amores encontram lugares em nós que não conhecemos. O passado foi lá atrás. O caminho é para a frente.


Obrigada pelo percurso.

Obrigada pela confiança.


Cátia Ruas Antunes



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